Zona de conforto

Existem expressões que, fruto da evolução das sociedades e dos seus comportamentos, têm má imprensa, e a «zona de conforto» é definitivamente uma delas. Repetida até à exaustão em inúmeros memes nas redes sociais, diz-se que não mata pessoas, mas mata, em silêncio, os nossos sonhos, o nosso potencial e o nosso futuro. É uma acusação grave para algo que, até há pouco tempo, considerávamos meritório e associávamos a uma cadeira decente, a alguma estabilidade e a viver sem precisar de provar nada a ninguém.

Entretanto, o conforto passou de conquista a suspeito. Se estamos tranquilos, talvez estejamos parados. Se não estamos permanentemente a superar alguma coisa, talvez estejamos a desperdiçar a vida. Descansar ainda se tolera, desde que seja para regressar mais produtivo. Já descansar só porque estamos cansados parece falta de ambição.

A expressão funciona porque toca numa experiência reconhecível. Há momentos em que continuamos onde estamos não por escolha, mas por receio. Um trabalho que já não nos interessa. Uma relação onde deixámos de caber. Um projeto que adiamos até que a vida, generosamente, nos ofereça tempo, dinheiro e ausência de dúvidas. Nestas circunstâncias, chamar conforto ao que sentimos pode ser um abuso de linguagem. Nem sempre estamos confortáveis. Às vezes, estamos apenas habituados.

E estar habituado a uma coisa não significa estar bem nela.

É aqui que a ideia começa a interessar, pelo menos a mim. Mas também é aqui que convém desconfiar da facilidade com que passa de observação a uma sentença. Ou saímos da zona de conforto e temos futuro, ou ficamos e assistimos ao funeral do nosso potencial. A escolha vem pronta. Só falta indicar o traje.

Ora, talvez exista uma terceira hipótese. Já pensaram nisso? Talvez o problema não seja o conforto, mas aquilo que fazemos com ele.

Uma casa pode ser abrigo ou esconderijo. Uma rotina pode libertar tempo ou ocupá-lo todo. Uma relação estável pode permitir que nos aventuremos no mundo ou tornar o mundo dispensável. O cenário, visto de fora, parece o mesmo. A diferença está na possibilidade de continuar a escolher.

Porque nem toda a permanência é desistência. Há quem fique para aprofundar, cuidar, aprender a fazer melhor. Repetir não é necessariamente estagnar. Também se pode avançar no mesmo lugar, embora isso dê fotografias menos espetaculares e poucas frases adequadas a uma apresentação sobre liderança.

Por outro lado, nem toda a mudança é coragem. Há quem mude de trabalho, de cidade ou de relação para não ter de enfrentar aquilo que transporta consigo. Parte-se com a mala cheia de problemas e espera-se que a nova morada se encarregue deles. Infelizmente, alguns têm um excelente sentido de orientação.

Sair pode ser uma decisão lúcida. Pode também ser uma forma elegante de fugir.

Talvez por isso a pergunta útil não seja «quando vais sair da tua zona de conforto?». Talvez seja «o que estás a evitar, ficando ou partindo?». É menos sonora, reconheço. Obriga a uma resposta que não cabe num meme.

Há ainda outro detalhe que estas expressões costumam esquecer: o risco não custa o mesmo a toda a gente. Uma coisa é saltar com uma rede por baixo. Outra é saltar sabendo que alguém depende do nosso salário, do nosso tempo ou da nossa presença. Vistos à distância, os dois gestos podem parecer igualmente ousados. Mas só um deles permite uma aterragem falhada sem consequências maiores.

Isto não significa que devamos fazer da prudência uma prisão. Significa apenas que a coragem não se mede pela quantidade de garantias que deitamos fora. Por vezes, consiste em preparar a saída. Poupar, estudar, pedir ajuda, experimentar em pequena escala. Há futuros construídos sem o espetáculo de uma rutura. Não são menores por isso.

E convém perguntar também quem decidiu quais eram os nossos sonhos. Queremos realmente mais, ou aprendemos que querer mais é a única forma aceitável de existir? Há um potencial nosso e há um potencial que os outros nos atribuem. O segundo costuma vir acompanhado de expectativas, comparações e uma vaga ameaça de desapontamento.

Talvez alguém pudesse ter sido diretor, empresário ou figura de destaque e prefira uma vida discreta. Isso é potencial desperdiçado ou liberdade exercida? A resposta depende de quem está a avaliar. E, aqui entre nós, nem sempre o avaliador foi convidado (quase nunca é).

Não proponho um elogio da acomodação. Há vidas que vão ficando demasiado pequenas por falta de perguntas. Mas também não me convence esta obrigação de transformar cada dia numa prova de superação. Uma existência não precisa de estar sempre em expansão para ter sentido.

O conforto merece ser interrogado, não condenado à partida. Importa perceber se nos devolve energia para viver ou se nos serve de desculpa para adiar. Se protege aquilo que escolhemos ou se evita que voltemos a escolher.

Talvez a zona mais perigosa não seja a de conforto. Talvez seja a de automatismo, ou seja, aquela onde ficamos sem saber porquê ou de onde partimos porque toda a gente garante que é preciso partir.

Não é obrigatório sair. Também não é obrigatório ficar.

Convém, isso sim, não entregar a decisão a uma expressão que, de tanto ser repetida, já a tomou por nós.

M.C.

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