Demasiadas portas
Nunca tivemos tantas possibilidades à disposição. Podemos escolher o que ver, o que ouvir, o que estudar, onde viver e, pelo menos em teoria, quem queremos ser. A liberdade apresenta um catálogo respeitável. Só não traz instruções para o percorrer sem perdermos a tarde.
Há noites em que procuramos um filme ou uma série durante mais tempo do que aquele que depois dedicamos a vê-los. Percorremos títulos, consultamos avaliações, espreitamos trailers. Quando finalmente escolhemos, já estamos cansados. A diversão ficou à espera enquanto trabalhávamos na seleção e o interesse perdeu-se.
A Lei de Hick oferece-nos um ponto de partida interessante para pensar este problema. Associada aos trabalhos de William Edmund Hick e Ray Hyman, descreve como o tempo de resposta aumenta com a quantidade de alternativas em determinadas tarefas simples. Esse aumento é logarítmico, não proporcional. Duplicar as opções não significa duplicar a demora.
Convém, porém, não pedir a esta lei mais do que ela nos pode dar. Hick estudou tempos de reação, não a angústia de escolher uma profissão, uma relação ou uma vida. Demorar mais não significa necessariamente escolher pior. E a lei, por si só, não demonstra que a abundância nos torna infelizes.
Ainda assim, deixa uma pergunta interessante: quando acrescentamos possibilidades, estamos apenas a aumentar a liberdade ou também o trabalho necessário para a exercer?
O chamado Paradoxo da Escolha desenvolve esta segunda hipótese. Num estudo célebre, Sheena Iyengar e Mark Lepper observaram que uma exposição com muitas variedades de compota atraía mais pessoas, mas uma seleção menor levava mais visitantes a comprar. A abundância despertava interesse, mas não garantia uma decisão.
Seria tentador concluir que menos é sempre melhor. Seria também demasiado fácil. Uma revisão de dezenas de experiências encontrou um efeito médio praticamente nulo para a sobrecarga de escolha. Outros trabalhos apontaram condições relevantes, como a complexidade das alternativas, a dificuldade da tarefa e a incerteza sobre as nossas preferências. Não existe um número universal a partir do qual a liberdade se transforma em problema.
Talvez, portanto, a questão não esteja apenas no catálogo. Talvez esteja também em quem o percorre.
É aqui que Einstein pode entrar nesta nossa conversa, desde que não lhe atribuamos uma teoria sobre supermercados. Na relatividade restrita, medidas de tempo e comprimento podem diferir entre referenciais em movimento relativo. Isso não significa que cada observador invente a sua realidade. As diferenças obedecem a relações precisas, e há invariantes, como a velocidade da luz no vazio.
A Teoria da Relatividade não nos diz que tudo é relativo. Muito menos que qualquer opinião vale tanto como outra. Diz algo mais exigente: para compreender certas medidas, precisamos de saber a partir de que referencial foram obtidas.
A transposição desta teoria para as escolhas é, como se compreenderá, metafórica, mas útil. Antes de perguntar se existem opções a mais, talvez devamos perguntar a partir de onde estamos a olhar para elas.
Uma carta de vinhos extensa pode ser um prazer para quem conhece o assunto e um pequeno interrogatório para quem só queria acompanhar o jantar. A lista é a mesma. A experiência não.
O referencial, nesta comparação, é feito de conhecimentos, desejos, recursos e limites. Quem sabe o que procura consegue excluir possibilidades. Quem ainda não sabe pode precisar de as explorar. Reduzir o catálogo ajuda o primeiro ou empobrece o segundo, conforme as circunstâncias.
Há ainda uma diferença entre querer escolher bem e exigir a melhor escolha possível. A primeira tarefa pode terminar quando encontramos algo adequado. A segunda mantém todas as portas entreabertas. Por isso, mesmo depois de decidir, continuamos a visitar mentalmente aquilo que deixámos de fora.
Escolhemos um filme, mas pensamos no outro. Aceitamos um emprego, mas imaginamos a proposta que poderia ter surgido. Vivemos uma relação, mas comparamos a pessoa concreta com uma hipótese sem defeitos conhecidos. O imaginário tem esta vantagem competitiva: raramente deixa a loiça por lavar.
O excesso já não está apenas nas opções disponíveis. Está nas possibilidades que recusamos abandonar.
E talvez aqui apareça o terceiro termo. Entre multiplicar escolhas em nome da liberdade e reduzi-las em nome do alívio, existe a possibilidade de construir critérios. Não critérios perfeitos, nem definitivos. Critérios nossos, suficientemente claros para distinguir o que interessa do que apenas está disponível.
Ter acesso não nos obriga a considerar tudo. Escolher implica reconhecer limites sem os confundir com derrota.
Mas importa também perguntar quem organiza as alternativas. Uma plataforma decide o que mostra primeiro. Uma loja determina como dispõe os produtos. Um menu pode facilitar a decisão ou conduzi-la. A liberdade de escolher não elimina a influência de quem desenhou o campo da escolha.
Olhar de fora exige, por isso, duas perguntas. O que procuro? E porque me estão a apresentar precisamente estas possibilidades?
Hick ajuda a pensar o tempo necessário para responder. A relatividade de Einstein, usada aqui como metáfora, lembra a importância de identificar o referencial. Nenhuma das duas teorias escolhe por nós. Felizmente.
Talvez a liberdade não consista em manter todas as portas abertas. Talvez consista em saber quais merecem a nossa atenção e aceitar que atravessar uma delas deixa outras para trás.
Não porque fossem necessariamente piores, mas porque uma vida não pode acontecer em todas ao mesmo tempo.
M.C.

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