O trabalho da página seguinte

Uma folha em branco. Esta ideia é, geralmente, utilizada como uma metáfora positiva. Remete-nos para aquilo a que, em inglês, se chama "fresh start". Associamo-la à liberdade, ao (re)começo, à possibilidade de escrever qualquer coisa no papel e nas nossas vidas. É uma imagem bonita, sobretudo enquanto não somos nós a ter de escrever.

Mas a verdade é que, quando chega a nossa vez, a liberdade ganha um cursor a piscar no ecrã.

Já não há nada a corrigir, nenhuma frase a melhorar, nenhum parágrafo que sirva de ponto de partida. Há espaço. E o espaço, que visto de fora parecia uma oportunidade, de repente exige uma decisão.

Talvez uma parte da dificuldade de deixar ir esteja aqui. Não apenas naquilo que perdemos, mas no que fica disponível depois.

Dizemos que precisamos de espaço, de tempo, de margem. Mas quando finalmente os temos, nem sempre sabemos o que fazer com eles. A agenda menos preenchida pode trazer alívio e uma pergunta incómoda: e agora?

Era mais fácil responder quando havia coisas a mais.

Uma obrigação, mesmo cansativa, organiza o dia. Uma expectativa, mesmo frustrada, dá-nos um ponto para onde olhar. Um problema antigo tem, pelo menos, a vantagem de ser conhecido. Sabemos por onde começar a preocupação, quais os argumentos, em que momento entra a indignação.

A folha em branco não colabora assim. Não traz assunto.

Por isso, podemos passar muito tempo a desejar sair de uma situação e descobrir, depois de sair, que também tínhamos uma rotina dentro dela. Não sentimos necessariamente falta do que nos fazia mal. Podemos sentir falta de saber o que vinha a seguir.

O desconforto era previsível. A liberdade ainda não tem hábitos.

É aqui que a expressão "deixar ir" começa a parecer demasiado arrumada. Sugere um gesto breve, quase elegante. Mas deixar alguma coisa pode implicar desmontar uma organização inteira da vida. O tempo que lhe dávamos. As conversas que tínhamos sobre ela. A maneira como nos apresentávamos aos outros.

Se eu era aquele que estava sempre ocupado com isto, quem sou agora que isto já não me ocupa?

A pergunta é pertinente e, aqui entre nós, não se resolve com uma frase sobre novos começos. Até porque, nessa altura, a última coisa de que precisamos pode ser mais uma tarefa a pesar-nos: além de largar o que pesava, convém agora construir uma vida extraordinária com a disponibilidade que sobrou.

Não bastava ter uma página em branco. Pelos vistos, é preciso escrever logo um livro, preferencialmente bom.

Talvez seja esta pressa que nos faça recuperar tão rapidamente coisas que já tínhamos decidido deixar. Voltamos a um hábito, aceitamos outra obrigação semelhante, procuramos uma preocupação de substituição. Nem sempre porque a queremos. Às vezes, porque ocupa o espaço antes que tenhamos de olhar para ele.

Preencher é uma maneira eficaz de não escolher. Basta aceitar o que aparece.

Mas também seria fácil romantizar o vazio. Há ausências que não chegam como liberdade. Chegam como perda, insegurança ou interrupção. Não se diz a alguém que perdeu alguma coisa importante que tem agora uma oportunidade magnífica para se reinventar.

Há folhas que ficaram em branco porque alguém nos tirou o que lá estava. E há momentos em que a preocupação não é escrever uma história nova, mas conseguir atravessar o dia.

Por isso, importa distinguir o espaço que procurámos daquele que nos foi imposto. Não começam no mesmo lugar, nem pedem o mesmo de nós.

Ainda assim, em ambos pode surgir uma dificuldade semelhante: viver algum tempo sem saber que forma terá o que vem depois.

Entre preencher depressa para não sentir o vazio e permanecer imóvel à espera da ideia certa, talvez exista uma terceira via: usar a página como rascunho.

Não é uma diferença pequena.

Uma página definitiva pede segurança. Um rascunho admite uma frase que não resulta, uma palavra provisória, uma tentativa que muda a direção do texto. Não exige que saibamos o fim antes de começar.

Talvez pudéssemos conceder essa condição a algumas partes da vida.

Experimentar uma atividade sem a transformar imediatamente numa identidade. Conhecer alguém sem lhe atribuir a missão de preencher uma ausência. Recuperar uma tarde sem decidir logo como torná-la produtiva. Fazer uma escolha que seja adequada para agora, sem lhe pedir uma validade eterna.

Temos alguma tendência para transformar o primeiro traço num contrato. Se começámos, temos de continuar. Se dissemos que queríamos, temos de querer até ao fim. Se deixámos uma coisa, convém que a seguinte justifique a decisão.

Assim, qualquer (re)começo fica encarregado de provar que o passado foi bem abandonado. É responsabilidade a mais para uma primeira tentativa.

Um rascunho permite outra relação com o erro. Podemos descobrir que afinal não era aquilo. O tempo não fica automaticamente desperdiçado por termos percebido melhor o que procuramos. Mas, para isso, precisamos de tolerar uma versão de nós que ainda não sabe explicar muito bem o que está a fazer.

Nem sempre é fácil, sobretudo quando alguém pergunta: "Então, e agora?"

A pergunta pode vir com carinho. Mesmo assim, apetece apresentar um plano, três objetivos e uma estimativa de conclusão. "Ainda estou a perceber" parece uma resposta insuficiente, embora às vezes seja a mais rigorosa que temos.

Talvez deixar ir dê também este trabalho: aprender a responder sem inventar certezas para tranquilizar os outros.

E há outra coisa. A folha pode estar em branco, mas nós não estamos.

Levamos experiência, gostos, cansaços, recursos e limites. O que aconteceu não desaparece para permitir um começo puro. Nem precisava de desaparecer. Uma coisa é deixar de repetir uma história, outra é exigir que ela nunca tenha sido nossa.

Não começamos do zero. Começamos com aquilo que conseguimos trazer, incluindo o que ainda não sabemos arrumar.

A imagem da página ajuda precisamente se não a levarmos longe demais. A vida não é um texto que controlamos sozinhos. Há outras pessoas a escrever connosco, acontecimentos que interrompem a frase, circunstâncias que estreitam a margem. A liberdade disponível nem sempre é a que desejaríamos.

Ainda assim, pode haver algum espaço onde experimentar uma resposta nossa.

É aí que o trabalho se torna concreto. Não na promessa de uma transformação completa, mas na decisão de não preencher automaticamente todas as linhas com o que já conhecemos. Deixar uma pergunta aberta. Suportar uma tarde sem recuperar a velha preocupação. Tentar alguma coisa sem anunciar que encontrámos o caminho.

Pode parecer pouco. Mas quem já esteve diante de uma página vazia sabe que escrever a primeira frase é diferente de imaginar o livro.

E sabe também que há dias em que o melhor trabalho é cortar uma frase muito bem construída que não está ali a fazer nada.

Crescer também inclui deixar algumas coisas. Não apenas para dar lugar a outras, como se a vida fosse uma troca permanente de conteúdos. Às vezes, para podermos descobrir o que escolheríamos se não tivéssemos de continuar o que já lá estava.

Talvez o vazio assuste porque já não temos o que antes nos ajudava a dizer quem somos. Durante algum tempo, não há uma ocupação, uma expectativa ou um problema a responder por nós.

Há uma folha à nossa frente.

Não precisamos de saber já o que fazer com ela toda.

Podemos começar por uma frase que ainda tenhamos liberdade de mudar.

M.C.

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