O que cresce enquanto ficamos

Confesso que sempre soube distinguir o desejo de mudar da impaciência com o tempo que as coisas demoram.

Há momentos em que a mudança é necessária. Outros em que me pergunto se não estarei apenas a procurar um começo novo, um lugar onde ainda não tenha encontrado as minhas dificuldades.

Começar tem essa vantagem: durante algum tempo, tudo é possível. Ainda não falhámos, ainda não nos cansámos, ainda não descobrimos a distância entre aquilo que imaginávamos e aquilo que somos capazes de fazer.

Permanecer, por seu turno, exige outra disponibilidade.

Penso em quem aprende um instrumento musical durante anos, sem a ambição de vir a tocar diante de uma plateia. Em quem continua a escrever, mesmo quando o que escreve fica aquém do que queria dizer. Em quem regressa a uma tarefa depois de um dia em que nada pareceu avançar.

Visto de fora, há pouco para contar. Mais uma aula. Mais uma página. Outra tentativa.

Talvez seja isso que torna a permanência tão difícil de reconhecer como uma forma de crescimento. Nem sempre produz um acontecimento. Não há uma data que se assinale, uma novidade para anunciar. Há apenas alguém a continuar, com um pouco mais de atenção ao que antes lhe passava despercebido, pocurando fazer melho hoje do que ontem e amanhã do que hoje.

Gosto da ideia de que podemos estar no mesmo lugar sem sermos os mesmos.

Regressar a um livro e reparar numa passagem que antes não nos dizia nada. Fazer um trabalho conhecido e perceber, finalmente, uma dificuldade que atribuíamos aos outros. Escutar uma opinião habitual e descobrir que já não temos tanta pressa de a contrariar.

Por fora, quase nada mudou. Mas a nossa maneira de estar ali tornou-se diferente.

Talvez crescer também passe por aceitar esse desfasamento: aquilo que se transforma em nós nem sempre é imediatamente visível, nem sequer para nós próprios.

Há aprendizagens que só reconhecemos mais tarde. Quando uma dificuldade já não nos assusta da mesma maneira. Quando conseguimos demorar-nos numa pergunta sem correr a procurar uma resposta. Quando um erro deixa de parecer um veredicto sobre quem somos e passa a ser alguma coisa com que podemos trabalhar para sermos uma melhor versão de nós próprios.

Não sei quanto disto se aprende avançando e quanto se aprende ficando tempo suficiente para prestar atenção.

Claro que permanecer também pode ser uma forma de não escolher. Podemos habituar-nos ao que nos limita, defender uma rotina apenas porque nos é familiar, chamar persistência ao receio de experimentar outra coisa.

Por isso, ficar não me parece, por si só, uma virtude. Interessa-me perceber como ficamos. Se continuamos presentes no que fazemos ou se apenas repetimos os gestos. Se ainda há curiosidade, liberdade, alguma vontade de aprender.

Talvez a pergunta seja menos "há quanto tempo estou aqui?" e mais "o que consigo ver agora que antes não via?".

Penso nas coisas a que não dei tempo. Não em todas, é verdade: algumas precisavam mesmo de ficar para trás. Mas noutras talvez tenha tomado o fim do entusiasmo pelo fim do sentido.

Eram ainda importantes. Só tinham deixado de ser novas.

Hoje, quando essa inquietação aparece, tento não decidir logo o que significa. Às vezes, é vontade de partir. Outras, é apenas o desconforto de ainda não saber.

Vou aprendendo a dar-lhe algum tempo.

Pode ser que o próximo passo me leve para outro lugar. Ou, quem sabe, pode ser que me permita, finalmente, conhecer melhor este.

M.C.

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