O passageiro do lugar 18A

É engraçado como os acontecimentos e os lugares comuns têm a capacidade de nos deixar a pensar mais além. Ontem foi um dia de chegadas. Num aeroporto há sempre alguém a procurar um rosto entre os rostos. À nossa volta, as instruções são claras: seguir, aguardar, apresentar identificação. Tudo parece pensado para nos fazer circular. Até a espera tem uma função: permitir que, depois, continuemos.

Marc Augé chamou "não-lugares" a espaços como aeroportos, autoestradas e supermercados. Mas a ideia não se resume a lugares onde não ficamos muito tempo. Um não-lugar, pelo menos na minha perspetiva, distingue-se pela dificuldade em nele inscrever identidade, relações e história: estamos ali sobretudo como passageiros, clientes ou utilizadores. Reconhecem-nos o bilhete, o cartão, a função. A nossa biografia pode ficar na bagagem, pois ali, à partida, não tem qualquer interesse.

É uma organização eficiente. Ninguém precisa de conhecer a nossa infância para nos indicar a porta de embarque. Há até algum descanso nesse anonimato: por momentos, podemos não ser o filho de alguém, o responsável por alguma coisa ou a pessoa a quem uma história antiga persegue e insiste em exigir explicações. Basta sermos o passageiro do lugar 18A, ou outro que nos tenha sido destinado no nosso voo, seja ele de partida ou de chegada.

Mas basta esperar por alguém para que o aeroporto deixe de ser apenas isso. O painel anuncia um voo e nós esperamos uma pessoa. Onde a infraestrutura vê circulação, nós vemos regresso. Um abraço introduz história numa sala concebida para processar movimentos, no meio de tantas outras histórias.

O próprio Augé não tratava lugar e não-lugar como categorias estanques. São polaridades que se misturam: as relações podem reaparecer no espaço anónimo, e nenhum lugar está definitivamente protegido da impessoalidade. Para quem ali trabalha, ou ali reencontra alguém, o aeroporto pode adquirir uma espessura que o passageiro em trânsito não reconhece, mas que está lá.

Talvez a pergunta não seja, portanto, "que espaço é este?", mas antes "que relação conseguimos estabelecer aqui?".

No ciberespaço, essa pergunta ganha outra dimensão. Podemos atravessar dezenas de perfis sem encontrar ninguém. Entramos, reagimos, seguimos. Somos recebidos pelo nome, mas tratados como tráfego. Uma personalização admirável: o sistema, ou melhor, o algoritmo, sabe que sapatos queremos comprar, embora não faça ideia do que nos tira o sono.

Confesso que seria tentador chamar não-lugar à Internet inteira. Mas seria também preguiçoso da minha parte fazê-lo. Os espaços digitais permitem práticas tão diferentes como trabalhar, estudar, conversar e construir narrativas partilhadas, mas não constituem um território humano uniforme. Há grupos onde uma ausência é notada, correspondências que atravessam anos e comunidades com memória. Um ecrã não impede o vínculo, assim como uma mesa de jantar também não o garante.

Aqui entre nós, a distinção talvez passe por outra coisa: somos apenas reconhecidos pelo sistema ou fazemos falta a alguém? Há uma diferença entre recuperar uma palavra-passe e recuperar uma conversa. Entre receber uma notificação e ser procurado.

É aqui que a metáfora se torna mais incómoda. E convém dizer que é uma metáfora: Augé não estava a classificar pessoas como terminais aeroportuários. Mas o conceito ajuda a formular uma experiência difícil de nomear. Podemos descobrir que, numa relação, éramos passagem quando julgávamos ser permanência.

Fomos escuta, abrigo, companhia. Alguém chegou cansado, pousou o que trazia e ficou o suficiente para recuperar forças. Nós começámos a imaginar uma casa. O outro, por sua vez, estava apenas a organizar a viagem seguinte.

O desencontro não está necessariamente no fim. Está no significado atribuído à estadia. Um pensava "estamos a construir" enquanto o outro, por seu turno, pensava "isto ajuda-me a atravessar". E nenhum painel luminoso anunciava a diferença. Nestas circunstâncias, a comunicação, como nos diria Niklas Luhmann, é uma improbabilidade logo à partida.

Seria fácil transformar esta descoberta numa acusação. Às vezes, há razões para isso: houve promessas, conveniência ou silêncio onde devia ter havido clareza. Outras vezes, porém, os dois foram sinceros e chegaram a destinos diferentes. Nem toda a partida é uma fraude, longe disso, assim como nem toda a relação breve foi vazia.

A permanência, aliás, não se mede apenas pelo calendário. Há presenças antigas em que já ninguém encontra lugar. E há encontros breves que continuam a fazer parte de nós. Durar e pertencer não são sinónimos.

Talvez nos magoe, sobretudo, descobrir que tínhamos história onde o outro tinha apenas circunstância. Que aquilo que nos parecia irrepetível era, para ele, uma possibilidade entre outras. Não éramos necessariamente pouco. Éramos, simplesmente, outra coisa.

Ainda assim, há uma armadilha em dizer "fui um não-lugar". Uma coisa é descrever a posição que ocupámos numa relação, outra, diferente, é deixar que essa relação nos defina. Ter sido escala para alguém não nos transforma num aeroporto. A partida do outro não leva consigo a nossa capacidade de acolher, escolher ou pertencer.


Volto à sala de chegadas. Alguém reconhece um rosto, levanta a mão e avança. Por instantes, a circulação interrompe-se e aquele espaço ganha um centro.

Talvez fazer lugar seja isso: deixar de tratar uma presença como substituível. Não prometer eternidade, mas reconhecer quem está diante de nós. E, quando for preciso partir, ter o cuidado de não chamar casa àquilo que sabemos ter sido apenas uma escala.

M.C.

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