Entre loucos

Há quem diga que a pior das loucuras é tentar ser sensato num mundo de loucos. Este dito tem o encanto das sentenças que parecem óbvias e, simultaneamente, a elegância de quem nos põe numa ratoeira sem fazer alarido.

Se não, repare-se na arquitetura. Há duas posições possíveis: ou se é louco com os outros, ou se é sensato contra eles. E a segunda, avisa-nos a frase, é a pior das duas. Ficamos assim a escolher entre a conformidade que nos desgasta e a lucidez que nos custa a reputação. É um dilema de cartilha, com a vantagem de vir embrulhado em ironia.

O problema está na palavra «sensato». Ser sensato quer dizer, quase sempre, estar ajustado ao que nos rodeia. Por isso, num ambiente em que todos correm, quem se detém parece desorientado. Numa sala onde todos concordam, quem pergunta «porquê?» parece querer complicar. O mundo, quando enlouquece, redefine a sensatez à sua medida e passa a chamar excêntrico a quem não acompanha. A frase tem razão no efeito, mas engana no diagnóstico: o sensato não é louco, apenas deixou de ser reconhecido.

Convém lembrar de onde vem esta intuição. A frase é atribuída a Erasmo, que escreveu o Elogio da Loucura, uma sátira em que quem fala é a própria Loucura, a louvar-se a si mesma. Erasmo não se confunde com a personagem. Esconde-se atrás dela e usa-a para expor os absurdos dos sábios, dos clérigos e dos poderosos do seu tempo. Ou seja, o autor de um elogio da loucura é, precisamente, quem se recusa a ser louco sem deixar de rir.

Aqui reside o terceiro termo que a frase não previa. Entre o louco que se funde com o mundo e o sensato que se isola contra ele, existe quem olha de fora sem sair da sala. Erasmo faz isso quando dá a palavra a outro e observa a cena. Não é conformidade, nem fuga. É distância com presença.

Em termos práticos, a terceira via não tem grande glamour. Passa por sorrir quando a urgência se torna doentia, perguntar quando o consenso é rápido demais e escolher o que é mais importante e não aquilo que faz mais barulho. Passa também por aceitar que nem toda a loucura é perigosa. Há uma que nos vem do amor, outra do riso, outra do gosto de perder tempo com o que não serve para nada. A sensatez total seria uma vida sem essas distrações, e a Loucura de Erasmo faz questão de lembrar que a existência humana ficaria insípida sem ela.

Mas existe uma ironia adicional nisto tudo. Quem escreve sobre sensatez corre sempre o risco de se achar mais sensato do que os outros. A tentação de olhar o mundo de cima, com sobrançaria benevolente, é a versão sofisticada da loucura que se critica. O olhar de fora só vale se incluir quem olha: é preciso reconhecer que também nós temos o nosso lote de absurdos, que também corremos, que também seguimos a corrente, mesmo quando juramos o contrário.

O que sobra, então, da frase de partida? Talvez uma correção. A pior das loucuras não é tentar ser sensato num mundo de loucos. A pior das loucuras é acreditar que a sensatez nos dispensa de rir de nós próprios. Sensato, no fim de contas, é quem consegue estar dentro da cena e fora dela ao mesmo tempo: atento ao que se passa, desconfiado das respostas fáceis e capaz de reconhecer o seu próprio ridículo.

Não é uma posição confortável, eu sei. Mas é a única de onde se vê a sala toda.

M.C.

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