Enquanto não chega o resto

Não sei quando começámos a exigir tantas condições para aproveitar um dia. Talvez tenha sido aos poucos, à medida que aprendemos a organizar a vida em função daquilo que ainda precisa de acontecer. Primeiro resolve-se isto, depois trata-se daquilo e, se entretanto não surgir outro problema, talvez sobre alguma disponibilidade para estar bem e aproveitar o momento.

É uma organização razoável. Só tem o inconveniente de raramente chegar à última parte.

Penso nisto quando vejo as coisas que guardamos para uma ocasião especial. Uma garrafa de vinho, uns copos de que gostamos, uma toalha que dá algum trabalho a passar. Não estão esquecidas. Sabemos que existem e até sentimos alguma satisfação por as ter. Mas falta sempre uma razão à altura de as tirar do lugar e dar-lhes o devido uso.

O jantar de hoje não parece suficiente. Estamos cansados, amanhã é preciso levantar cedo, não houve nenhuma novidade que mereça celebração. Usamos o habitual. Guardamos o resto.

É possível passar muito tempo assim, a conservar coisas boas para uma versão da vida em que estaremos mais disponíveis para elas.

Recentemente, encontrei uma frase que me fez voltar a este assunto: "sofremos muito com o pouco que nos falta e desfrutamos pouco do muito que temos."

Reconheci-me nela, mas não inteiramente. Há qualquer coisa que me incomoda na facilidade com que podemos dizer a alguém que repare no muito que tem. Não sabemos sempre o tamanho daquilo que lhe falta. Uma ausência pode ocupar uma casa inteira, mesmo que a casa tenha tudo o resto.

Também não gostava de usar a gratidão para me convencer de que não devo querer mudanças. Há coisas que precisam de melhorar, situações que não se tornam aceitáveis por existirem outras piores. Posso reconhecer o que tenho, e ser grato por isso, sem assinar uma declaração de satisfação com tudo o que me rodeia.

Ainda assim, a frase ficou comigo, ou melhor, acompanhou-me no caminho. Talvez porque, afastada essa obrigação de agradecer, sobra uma pergunta a que não consigo responder tão depressa: quanto daquilo que já faz parte da minha vida chega realmente a ser vivido?

Não me refiro a grandes oportunidades desperdiçadas. Penso em coisas mais pequenas. Uma conversa em que estive presente apenas o suficiente para responder. Um passeio durante o qual continuei a tratar mentalmente do trabalho ou de outros temas menores. Um fim de tarde que esperei a semana inteira e em que passei a antecipar a semana seguinte.

Não aconteceu nada de particularmente errado. Mas também não cheguei bem a estar ali.

Às vezes, parece que o presente serve sobretudo para preparar condições. Trabalhamos para ter tempo, organizamos para descansar, resolvemos para deixar de nos preocupar. E depois, quando surge alguma margem, já estamos tão habituados a procurar o que falta que continuamos à procura.

É difícil pousar uma preocupação só porque o jantar está na mesa. Não basta decidir que vamos aproveitar para que a cabeça colabore. Há dias em que até o descanso se torna frustrante, porque estamos finalmente parados e não sentimos o alívio que tínhamos previsto.

Talvez seja injusto exigir a esses momentos que nos compensem de tudo.

Um jantar pode ser apenas um jantar. Não tem de reparar uma semana difícil, resolver uma inquietação ou provar que a vida está a correr bem. Pode haver alguma coisa boa nele mesmo que, depois de levantarmos a mesa, o problema continue por resolver.

Esta possibilidade interessa-me mais do que a ordem para "dar valor ao que temos". Não me pede que faça uma avaliação global da minha sorte. Pede-me uma coisa mais concreta: deixar que o que está a acontecer tenha alguma importância, sem o obrigar a resolver tudo o que me preocupa.

Posso não estar satisfeito com o meu trabalho e gostar de estar ali, à conversa. Posso desejar uma mudança e não passar o domingo inteiro à espera dela. Posso ter uma questão difícil pela frente e, durante algum tempo, não fazer dessa questão a única coisa verdadeira da minha vida.

Não seria uma fuga. A fuga talvez estivesse em fingir que o problema não existe. Aqui, trata-se de admitir que existem outras coisas também.

É nessa distinção que encontro uma terceira possibilidade, ou não estivéssemos nós aqui, neste meu e também vosso Tertium Quid. Nem desistir de procurar o que falta, nem fazer de toda a vida uma sala de espera. Continuar a querer, a tentar, a resolver, mas permitir que alguma coisa aconteça entretanto, quanto mais não seja, porque a vida acontece no presente.

Assim, sem grande programa. Até porque, aqui entre nós, tenho algum receio dos programas de felicidade, sobretudo quando começam a parecer mais exigentes do que aquilo de que nos pretendiam libertar. Não quero acabar o dia a censurar-me por não ter apreciado devidamente a luz da tarde ou o pôr do sol.

Haverá distração, cansaço, dias pouco interessantes. Nem tudo precisa de ser recuperado através de uma atitude melhor. Mas talvez haja ocasiões que deixamos passar não por impossibilidade, mas porque nos habituámos a considerá-las insuficientes.

Podíamos abrir o tal vinho. Podíamos ficar mais um pouco à mesa. Podíamos fazer o convite antes de encontrar a data perfeita. Não para celebrar uma vida finalmente resolvida, mas porque nos apetece partilhar aquela parte dela no presente.

E aceitar que isso basta para hoje.

Os suecos têm uma palavra para isto: fika, a pausa para café que não precisa de justificação.

Continuará a haver contas para fazer, decisões adiadas e coisas que gostaríamos que fossem diferentes. Abrir a garrafa de vinho não resolve nada disso. Mas talvez permita uma conversa que, de outra forma, não aconteceria.

Não sei se precisamos de ocasiões mais especiais. Talvez precisemos mesmo de deixar de reservar o melhor que temos para dias em que não falte nada. Tenho dúvidas de que esses dias cheguem com frequência. E, por isso, gostava de não passar os outros todos a preparar-lhes a mesa.

M.C.

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